Presos com eles
Os Estados Unidos são um país muito grande, muito rico e muito poderoso para serem ignorados. As loucuras de seu rei têm um custo mortal para todos nós.
Desde que eu nasci eu sei de uma coisa. Os Estados Unidos projetam seus desejos, suas fantasias e seus sonhos para o resto do mundo. Copiamos e imitamos tudo deles. Políticos africanos, europeus, asiáticos e sul-americanos se inspiram deles. Movimentos culturais, modelos econômicos, artistas, músicos, cantores, movimentos underground e cultura de gueto, todos, querem parecer com eles.
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Não vou fingir aqui que durante muito tempo os Estados Unidos, ao menos seu povo, não deram ao mundo motivos de admiração. Afinal, o movimento negro brasileiro aprendeu, trocou e ensinou muito ao movimento negro americano. Muhammad Ali, Angela Davis, Martin Luther King inspiraram gerações do mundo inteiro. Portanto, eu não sou aquela pessoa que rejeita automaticamente tudo que é americano (estadunidense).
Lamento que esse espírito americano tenha se perdido. Acho que esse é o grande problema que estamos todos observando. Até as práticas jornalísticas que inspiraram o mundo já fazem parte da memória. Nada resistiu ao tempo. O que temos hoje? Pura submissão. Uma geração dopada a base de UFC, NFL, NBA, Marvel e D.C. Não sei dizer se as pessoas estão muito ocupadas com seus problemas reais e não prestam atenção às manobras do governo Trump ou se é realmente uma característica de uma sociedade muito atomizada.
O problema atual é de proporções inesperadas. Afinal, Trump conseguiu capturar a agência federal de controle de imigração, o famoso ICE que depende do Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security). É hoje a agência de segurança nacional com o maior orçamento do país. Vejam só a dimensão da disparidade aqui.
Para vocês terem uma ideia, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e sua principal agência, o FBI, têm um orçamento anual de 35 bilhões de dólares (combinados). O ICE agora tem um orçamento anual de 29 bilhões por ano. O ICE sozinho! E é uma agência ultra militarizada.
São tantos aspectos do ICE que mereceriam ser analisados, mas sinceramente, não tenho tempo hoje. Comecei a escrever este texto ontem antes de dormir e peguei algumas ideias aqui e ali na minha cabeça e pensei em compartilhar com vocês. Enquanto isso, estou preparando outro texto mais importante. Mas antes queria mesmo comentar um pouco sobre os últimos acontecimentos que temos visto no noticiário internacional.
Vejam então. O ICE é hoje a agência mais atrativa dos Estados Unidos em termos de rendimentos imediatos. Dinheiro fácil para todos. Uma jornalista americana testou o modo de recrutamento agência e descobriu que seus recrutadores não sabem quem eles contratam. Pode ser qualquer um. O texto dela publicado no Substack rendeu muito e foi notícia nacional nos Estados Unidos. Além disso, os agentes do ICE “receberam” informalmente a imunidade total da boca de J.D. Vance depois da morte de Renee Good; e agora se sentem à vontade para matar.
O erro cometido por Jonathan Ross, que deixou seu rosto descoberto enquanto assassinava a Renee, não será mais repetido. Os agentes que massacraram Alex Pretti duas semanas depois não deixaram escapar o mínimo detalhe que sugerisse ao público suas identidades. A menos de uma decisão judicial expressa de um tribunal superior, jamais saberemos quem eram esses indivíduos.
Em outras palavras, os agentes do ICE agora vão usar cada vez mais suas máscaras porque pelo menos evitam a pressão social que caiu sobre os ombros de Jonathan Ross. Até aqui, é a única “punição” que ele sofreu. Basicamente, ele e sua família estão vivendo na clandestinidade, protegidos pelo governo Trump.
Outro fato importante é que o conselheiro de Trump em matérias de segurança nacional e políticas públicas, Stephen Miller [o sósia de Goebbels], exigiu uma cota de 3 mil prisões de imigrantes por dia. Cada agente recebe um bônus por essas prisões. Dizem que esse bônus pode subir até 80 mil dólares, além dos 50 mil dólares na hora do recrutamento se o agente assinar um contrato de cinco anos. Eles também recebem pagamentos para quitar suas dívidas estudantis. As prisões efetuadas nem precisam ser válidas. Quer dizer, os agentes podem prender pessoas sem motivo, inclusive, cidadãos americanos. E mesmo que essas pessoas sejam liberadas em dois ou três dias, essas prisões são contabilizadas nos objetivos de Stephen Miller. Ou seja, é praticamente um convite oficial a cometer mais abusos de poder. E com isso mais violência. Mais mortes também.
O que isso tudo nos indica? Claramente, haverá mais contratações do ICE. Os americanos vão aderir ao ICE não por ideologia ou convicção, mas por causa do dinheiro e por causa da impunidade. A maior religião dos Estados Unidos é o dinheiro. E por ele, vizinhos vão matar vizinhos.
Essa ideia me preocupou um pouco quando parei para pensar nela. Todos nós ouvimos as histórias do nazismo e da questão que mobilizou a Europa por décadas: os alemães sabiam? E se sabiam, por que toleraram o extermínio dos judeus? Era possível não saber? Todas essas perguntas se tornam assustadoramente atuais para nós já que estamos vendo os americanos olhando com certa indiferença as prisões, as agressões, as humilhações, as deportações e o confinamento em campos e prédios secretos do ICE. Até mesmo crianças...
Para mim, a resposta é simples. Eles vão aderir cada vez mais porque os americanos têm o culto do dinheiro como base de sua sociedade.
Nosso problema enquanto cidadãos do mundo é que estamos presos neste planeta com os Estados Unidos e seu arsenal nuclear. Eu lembrei de um filme que gosto muito, “Watchmen” – também gosto do quadrinho. Aliás, tenho que contar algo sobre um quadrinho que estou lendo atualmente e acho muito interessante para pensarmos o futuro, mas deixo isso para outro texto.
Numa cena famosa, Rorschach, personagem central do filme que acaba de ser preso, é ameaçado por outros detentos. Mas ele os avisa: “Vocês não estão entendendo. Eu não estou preso aqui com vocês. Vocês que estão presos aqui comigo. ”
Meu sentimento a cada dia que passa é que estamos nessa mesma situação com os Estados Unidos. Presos com eles.
Os americanos bagunçam a casa deles e bagunçam nossas casas também. É isso que fizeram em no Iraque, no Afeganistão, em Gaza, no Irã e na Venezuela. Seria muito mais fácil se eles se dedicassem a fazer um trabalho doméstico, mas não, os impérios precisam exportar morte, pilhagem e destruição para outras nações.
A única esperança que resta ao mundo, não se enganem, é que o povo americano desperte. Voltamos outra vez onde começamos. São os próprios americanos e suas escolhas que vão determinar o futuro da humanidade. Não é um pouco irônico – e talvez engraçado – que nossas esperanças recaiam finalmente nesse povo que tantos entre nós odeiam. Enfim, é o que eu vejo por aí...





É contraditório que mesmo com esses sinais de decadência nos EUA, a influência sobre nossos processos e movimentos políticos parece que nunca esteve tão alto. Tanto nossa direita quanto nossa esquerda têm referenciais norte americanos.
A maior religião dos Estados Unidos é...
🙌🏻🏆